Artrose: o que é, sintomas e o que fazer
Resposta curta: a artrose (ou osteoartrose) é o desgaste da cartilagem que reveste as articulações — a "almofada" que permite aos ossos moverem-se sem atrito. É a forma mais comum de doença articular e aumenta com a idade: aos 40 anos, cerca de 1 em cada 5 pessoas tem artrose do joelho, e é mais frequente nas mulheres. Não é uma inflamação como a artrite reumatoide, e não se "cura" com uma cápsula — mas os sintomas controlam-se, sobretudo com peso e exercício.
Aqui explicamos o que é, que tipos há, onde aparece, como se diagnostica e o que fazer primeiro — com as fontes à vista.
O que acontece na articulação
Entre dois ossos que se tocam há uma camada de cartilagem, lisa e resistente, que funciona como amortecedor e permite o deslize sem atrito. Na artrose, essa cartilagem vai-se desgastando com os anos. O osso por baixo fica mais exposto, a articulação inflama de forma ligeira, e surge a dor.
É um processo normal com a idade, não resulta de algo que a pessoa tenha feito de errado. O que acelera: excesso de peso (carrega as articulações), lesões antigas, e o próprio envelhecimento. Em Portugal fala-se muitas vezes em "cartilagem gasta" — é a mesma coisa.
Uma distinção importante que muita gente confunde: a artrose é desgaste; a artrite reumatoide é uma doença autoimune, em que o sistema imunitário ataca a articulação. São coisas diferentes, com tratamentos diferentes — explicamos como distinguir em artrite ou artrose.
Que tipos de artrose existem
A artrose divide-se em dois grandes tipos, conforme se conhece ou não a causa.
A artrose primária é a degeneração da articulação sem causa identificável — é a forma mais comum e resulta da interação de fatores genéticos e ambientais ao longo do tempo. É a artrose "de desgaste" típica que aparece com a idade.
A artrose secundária é consequência de outra causa conhecida: um trauma antigo (uma fratura, entorses graves), uma deformidade congénita ou displasia articular, doença articular na infância, distúrbios metabólicos ou hormonais, inflamação articular prévia, ou obesidade. Aqui há um "porquê" concreto por trás do desgaste.
Além do tipo, a artrose classifica-se também pela localização — joelho, anca, mãos, coluna, ombro, tornozelo — e cada zona tem particularidades, que tratamos em páginas próprias mais abaixo.
Com que frequência acontece, por idade
A artrose é comum e torna-se mais provável com a idade. Alguns números que ajudam a pôr a sua situação em perspetiva:
A nível de sintomas (não só de imagem), a artrose sintomática do joelho afeta cerca de 10% dos homens e 13% das mulheres com mais de 60 anos, enquanto a imagem radiográfica de desgaste aparece em cerca de 37% das pessoas dessa idade. Uma fonte de conteúdo médico português refere cerca de um milhão de doentes com artrose em Portugal.
Ter artrose aos 60 não é sinal de que algo correu mal — é o mais habitual. E ter sinais na radiografia não significa, por si só, ter dor: muitas pessoas com desgaste visível não têm queixas, e o contrário também acontece.
Onde aparece — e a página de cada zona
A artrose pode surgir em quase qualquer articulação, mas há zonas típicas. Cada uma tem particularidades, por isso tratamos em páginas próprias:
- Joelho (gonartrose) — a mais comum e a que mais limita andar: artrose no joelho
- Mãos e dedos — nós nos dedos, dificuldade em agarrar: artrose nas mãos
- Anca (coxartrose) — dor na virilha, coxear: artrose na anca
- Coluna e cervical — rigidez, dor nas costas ou no pescoço: artrose na coluna
Quais são os sintomas
Os três sintomas centrais da artrose são:
- Dor que aparece com o movimento e alivia com o repouso (dor "mecânica")
- Rigidez, sobretudo ao levantar ou depois de estar parado, que passa em poucos minutos
- Limitação do movimento à medida que a articulação perde amplitude
Pode também sentir estalidos, inchaço ligeiro, ou a sensação de a articulação "falhar". A dor tende a ser pior ao fim do dia e depois de esforço.
Um pormenor que distingue da artrite reumatoide: na artrose a rigidez matinal dura poucos minutos; se durar mais de 30–60 minutos, pode ser outra coisa e merece avaliação.
Como se diagnostica
A artrose é, na prática clínica, um diagnóstico clínico e radiográfico: o médico junta as queixas (dor mecânica, rigidez curta) ao que vê na radiografia (osteófitos, estreitamento do espaço articular). Não é preciso um exame sofisticado para a confirmar.
A radiografia costuma classificar-se pela escala de Kellgren–Lawrence, de 0 a 4:
| Grau | O que a radiografia mostra |
|---|---|
| 0 | Normal — sem sinais de artrose |
| 1 | Duvidoso — estreitamento duvidoso, possível osteófito inicial |
| 2 | Ligeiro — osteófitos definidos, estreitamento ligeiro |
| 3 | Moderado — vários osteófitos, estreitamento definido, possível esclerose |
| 4 | Grave — estreitamento acentuado, osteófitos grandes, deformidade óssea |
Um pormenor importante: o grau na imagem nem sempre corresponde à dor sentida. Há doentes com grau 3 e pouca dor, e o contrário também acontece. É o médico, não a imagem isolada, que decide a conduta.
As análises de sangue (fator reumatoide, anti-CCP, VS, PCR) não servem para diagnosticar a artrose — servem para excluir uma causa autoimune quando o quadro é atípico (rigidez matinal prolongada, inflamação evidente, mãos simétricas afetadas). É a diferença que explicamos em artrite ou artrose.
Como evolui, com e sem tratamento
Não existe cura para a artrose com os tratamentos atuais — todos visam reduzir sintomas e retardar a progressão, não reverter o desgaste já instalado.
Nas articulações que suportam peso (joelho e anca), a evolução é tipicamente progressiva, mas lenta, ao longo de vários anos, e a velocidade depende de medidas de estilo de vida: perder peso e evitar sobrecargas repetidas ajuda a travá-la. Nas mãos, a evolução é mais variável — há quem desenvolva nódulos quase sem dor, e quem sinta dor nas fases iniciais que depois diminui à medida que a deformidade se instala.
A mensagem prática: a artrose não é uma sentença de agravamento rápido. O que mais influencia o curso é o que a pessoa faz — mexer, controlar o peso — e não o que compra.
O que fazer primeiro — antes de comprar seja o que for
A primeira linha de tratamento da artrose não se compra numa farmácia:
- Movimento. O exercício alivia a dor com um efeito comparável ao dos medicamentos. Fortalecer os músculos à volta da articulação protege-a.
- Peso. Cada quilo a menos alivia a carga. Perder cerca de 5 kg reduz para metade o risco de artrose do joelho ao longo dos anos.
- Calor/frio e descanso ativo nas crises, sem parar de mexer no resto.
Só depois disto fazem sentido os medicamentos para a dor (que o médico indica) e, com expectativas realistas, alguns suplementos — de que falamos em suplementos para as articulações.
Quanto tempo se espera por um especialista em Portugal
Esperar meses por uma consulta hospitalar é a regra no SNS, e isso muda o que faz sentido fazer entretanto. O tempo médio de espera por primeira consulta de ortopedia ronda os 204 dias e o de reumatologia os 212 dias, podendo ser muito mais em alguns hospitais.
O ponto de entrada é o médico de família, que avalia a queixa, pode pedir radiografia e análises, e referencia para o hospital quando é preciso. Enquanto espera, o que tem melhor evidência — exercício e controlo de peso — não depende de nenhuma marcação e já pode começar hoje.
E os suplementos ajudam?
Em resumo: menos do que a publicidade diz. A glucosamina e a condroitina, os mais vendidos, não superaram o placebo nos ensaios grandes, e duas grandes sociedades médicas recomendam contra o seu uso; a curcumina é a que tem melhor evidência. Nenhum reconstrói cartilagem. Vale a pena ler o que a evidência mostra antes de gastar.
- articulação quente, vermelha e muito inchada, sobretudo sem pancada
- febre acima de 38° com uma articulação a inchar e a doer depressa
- inchaço súbito e forte sem causa
- incapacidade de apoiar o peso ou mover a articulação
- dor noturna com perda de peso sem explicação
- rigidez matinal que dura mais de 30–60 minutos
Fontes utilizadas
- Epidemiologia da osteoartrose: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2920533/
- Prevalência global do joelho: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7704420/
- Tipos (primária/secundária), StatPearls: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482326/
- Graduação Kellgren–Lawrence: https://www.mededportal.org/doi/10.15766/mep_2374-8265.10503
- Exames que distinguem artrite de artrose (anti-CCP): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3170888/
- Evolução/prognóstico da artrose: https://www.wikidoc.org/index.php/Osteoarthritis_natural_history,_complications_and_prognosis
- Sintomas da osteoartrose, NHS: https://www.nhs.uk/conditions/osteoarthritis/symptoms/
- Exercício e perda de peso na artrose: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10922233/
- Artrite séptica (sinais de alarme), NHS: https://www.nhs.uk/conditions/septic-arthritis/