Tratamento da artrose: o que funciona mesmo
Resposta curta: o tratamento da artrose que mais funciona não sai de uma caixa: é o exercício e o controlo do peso, com um efeito na dor comparável ao dos medicamentos. A seguir vêm os analgésicos e anti-inflamatórios (para as crises, indicados pelo médico), as pomadas (ajuda modesta, mas segura), as infiltrações e os apoios (ortóteses) em casos selecionados, e, por último, os suplementos, cuja evidência é fraca na maioria. Nenhum tratamento reconstrói a cartilagem — o objetivo é controlar a dor e manter a articulação a funcionar.
O que funciona melhor: exercício e peso
Começamos pelo mais importante e o mais barato. Nos estudos, o exercício produz melhorias da dor e da função com um tamanho de efeito comparável ao do tratamento farmacológico: cerca de 0,52 para a dor e 0,46 para a incapacidade no exercício aeróbico, e 0,39 / 0,32 no exercício de força. Não são números de folheto — são de revisões que compararam exercício com placebo.
A perda de peso faz ainda mais. Perder cerca de 5,1 kg reduziu para metade o risco de desenvolver artrose do joelho em mulheres, ao longo de dez anos. E há uma razão mecânica: num ensaio de marcha em 3D, cada quilo de peso corporal a menos associou-se a uma redução de cerca de 4 kg na força que atravessa o joelho a cada passo. Peso e atividade física juntos funcionam melhor do que qualquer um deles isolado.
As sociedades médicas colocam o exercício como primeira linha — antes de medicamentos. Na prática: atividade de baixo impacto (andar, nadar, bicicleta), fortalecimento dos músculos à volta da articulação, um programa de 8–12 semanas, 3 a 5 vezes por semana, procurando ultrapassar os 6000 passos por dia. É o tratamento com melhor relação entre eficácia e segurança, e não custa nada.
Fisioterapia e apoios (ortóteses)
A fisioterapia estrutura esse exercício e adapta-o à sua articulação e ao seu nível: ensina os movimentos certos, corrige a forma e faz a progressão de carga sem sobrecarregar. É a forma orientada de fazer aquilo que os estudos mostram funcionar, útil sobretudo quando a dor limita começar sozinho.
Os apoios físicos completam o quadro e constam das recomendações de gestão não-farmacológica:
- Calçado adequado. Sola amortecedora e estável reduz o impacto a cada passo.
- Palmilhas e apoios de marcha. A bengala, usada do lado oposto à articulação dorida, retira carga do joelho ou da anca.
- Joelheiras e talas. Dão estabilidade e conforto em fases de mais dor.
Nada disto reconstrói cartilagem, mas retira carga e dor da articulação no dia a dia — que é o objetivo realista do tratamento.
Medicamentos para a dor
Quando a dor aperta, o médico pode indicar:
- Paracetamol — para dor ligeira, primeiro degrau.
- Anti-inflamatórios (AINEs) como o ibuprofeno — mais eficazes na dor com inflamação, mas com efeitos secundários (estômago, rins, tensão) se usados de forma prolongada. Por isso são para crises, não para tomar sempre.
A regra é simples: os medicamentos controlam a dor, não travam a doença, e devem ser usados com a orientação do médico ou farmacêutico — sobretudo se já toma outros medicamentos.
Infiltrações: corticoide, ácido hialurónico e PRP
As infiltrações injetam medicamento diretamente na articulação e reservam-se para casos selecionados, decididos pelo médico:
- Corticoide. Anti-inflamatório potente, dá alívio da dor a curto prazo nas crises. O efeito é temporário e não se repete indefinidamente.
- Ácido hialurónico (viscossuplementação). Procura melhorar a "lubrificação" da articulação; o benefício é discutido e varia entre doentes.
- PRP (plasma rico em plaquetas). Usa o próprio sangue do doente; é uma técnica mais recente, com evidência ainda em construção e não comparável à das medidas de primeira linha.
Nenhuma destas injeções regenera a cartilagem, e a decisão de as usar é sempre clínica.
Pomadas e géis para a artrose
As pomadas com anti-inflamatório (por exemplo, à base de diclofenac ou cetoprofeno) têm uma vantagem: agem no local com menos efeitos secundários do que os comprimidos, porque pouco passa para o sangue. O alívio é modesto e temporário, mas para articulações superficiais (joelho, mãos) pode ajudar nas crises.
Atenção aos géis vendidos por anúncios que prometem "regenerar a cartilagem": uma pomada não reconstrói cartilagem, faça o que fizer a publicidade.
E os suplementos?
Entram por último e com expectativas realistas. Em resumo: a glucosamina e a condroitina não superaram o placebo nos ensaios grandes; a curcumina é a que tem melhor evidência (chega a igualar os anti-inflamatórios, com menos efeitos secundários, embora a certeza dos dados seja baixa); o colagénio tipo II é promissor mas não confirmado. Nenhum reconstrói cartilagem.
Vale a pena ler o que a evidência mostra, ingrediente a ingrediente, com doses e preços em Portugal, antes de gastar.
O que dizem os guidelines (e onde discordam)
As grandes sociedades médicas concordam num ponto e dividem-se noutro — e mostrar isso é mais honesto do que fingir consenso:
- OARSI (2019). Recomenda para todos os doentes os tratamentos-núcleo: exercício, gestão de peso e educação/autogestão. Recomenda fortemente contra glucosamina e condroitina no joelho, por falta de eficácia demonstrada.
- ACR/Arthritis Foundation (2019). Recomenda fortemente contra glucosamina e condroitina no joelho e anca. A única exceção: a condroitina é sugerida de forma condicional apenas para a artrose das mãos.
- EULAR. As suas recomendações de gestão não-farmacológica centram-se em plano individualizado, educação, exercício com dose e progressão, controlo de peso, calçado e apoios de marcha.
- ESCEO. Em sentido oposto, recomenda glucosamina e condroitina de "grau farmacêutico" como primeira linha.
Ou seja: sobre exercício e peso há consenso; sobre glucosamina/condroitina, a comunidade científica está dividida, com sociedades de peso a recomendarem contra.
O que evitar
Poupe dinheiro e tempo a estes:
- Produtos "regeneradores". Nenhum tratamento disponível reconstrói a cartilagem — seja pomada, comprimido ou injeção.
- "Curas" e aparelhos milagrosos vendidos por anúncios, sem estudos.
- Adiar o exercício e o peso à espera do suplemento certo: é trocar o que tem mais evidência pelo que tem menos.
E a cirurgia?
Para os casos avançados, com dor incapacitante que não melhora com nada do acima, existe a cirurgia de prótese (artroplastia), sobretudo do joelho e da anca. É eficaz a devolver mobilidade e a tirar a dor, mas é o último recurso e a decisão é do ortopedista. Em Portugal, importa contar também com as listas de espera do SNS, que nesta área são longas.
O que este guia faz — e o que não faz
Ordenamos os tratamentos pela evidência, para ajudar a saber onde pôr o esforço (e o dinheiro). Não substitui o médico, que decide os medicamentos, as doses e se um tratamento faz sentido no seu caso — sobretudo se já toma outra medicação.
Porque não indicamos uma "dose recomendada"
Não damos doses de medicamentos nem de suplementos para tomar por conta própria. A dose certa depende do fármaco, do seu peso, dos outros medicamentos e do seu caso — e alguns interagem (a glucosamina com a varfarina, por exemplo, com casos reportados de aumento do INR). Quem promete uma fórmula igual para todos está a vender, não a tratar.
- articulação quente, vermelha e inchada com febre
- dor que agrava depressa em dias, com perda de peso ou mal-estar
- rigidez de manhã com mais de 30–60 minutos
Fontes utilizadas
- Exercício e perda de peso na artrose: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10922233/
- Efeito do exercício (tamanhos de efeito): https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3555691/
- Perda de peso e carga no joelho (Messier 2005): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15986358/
- Guidelines OARSI 2019: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31278997/
- Guideline ACR/Arthritis Foundation 2019: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31908149/
- GAIT trial (glucosamina/condroitina): https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20525840/
- Curcumina vs AINEs: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC8202067/
- Sintomas e sinais de alarme, NHS: https://www.nhs.uk/conditions/osteoarthritis/